quinta-feira, 21 de agosto de 2008

XXIII ESCAMBO - Uma troca de arte, cultura e cidadania




O Escambo Popular de Arte de Rua persiste, resiste, pulsa, caminha, adolescer e depois nos redemoinhos da vida alguns que se afastaram um pouco de seus momentos de celebração e encontro, muito embora continuem a amá-lo, admirá-lo, esse foi um momento por demais significativo.Chegamos á Umarizal, pequena cidade do oeste potiguar, com seus 12.000 habitantes, talhada em ruas largas, algumas ainda marcadas pelas chuvas que as alagaram há poucos dias e o primeiro sentimento foi de mãe amorosa, parteira que pensa o cuidado de seus afilhados. Ali estão osmeninos poetas palhaços acrobatas de Janduís-RN. Cidadãos que ousaram tomar a história nas mãos. Ouço em um momento o ator Bira trazendo Bertold Brecht para a roda:”Você tem que assumir o comando... “E eles assumiram a cultura, a educação de Janduís, essa cidade tão pequena com problemas de um país, como tão bem poetizou Ray Lima. Mas não só tomaram a história nas mãos como legaram ao Escambo, seus filhos e filhas, umanova geração de atores e atrizes. Que lindo compartilhar de gerações!!! Naquela noite de sexta feira, a grata surpresa foi à ginga de Jadiel Lima, tão bela, tão musical.O meu olhar saudoso e minha alma cansada vão se aninhando e se animando em cada abraço, cada sorriso, no perceber as marcas do tempo e a transformação dos corpos. Mas os sorrisos, ah! esses sorrisos!!!A poesia invade minha alma. Estou em casa. Feliz e comovida. Não tenho a princípio desejo de falar, mas de viver em plenitude o reencontro com a família Escambo.O dia seguinte nasce com um sol preguiçoso. No café da manhã o encontro com os mestres: Amir Haddad, Gilberto calungueiro, Ray Lima, Junio Santos, Zé Cordeiro. Ouvir as narrativas do mestre Gilberto de Icapuí-CE, me faz pensar nas estratégias de resistência desses artistas do mundo. Na felicidade que é para eles brincar e viver a sua arte, não dela, mas nela, com ela. O ser brincante, Pedro Malazarte que fala pela voz do mestre Gilberto nos faz rir e refletir: nunca deixei de brincar numa comunidade porque os meninos não tinham dinheiro, porque a alegria deles era a minha alegria?.... Eu fiz uma promessa a São Francisco para ir e voltar a Canindé sem gastar umtostão.....?.Do mestre Amir, o compromisso com um teatro livre, inclusivo, brincante e problematizador. Em meio ás tapiocas, esse alimento genuinamente indígena, nordestino, vamos brincando e rindo, exercitando a arte de viver a vida prazerosamente.Na escola encontros de regiões e gerações. Rostos conhecidos desejosos de serem re-conhecidos. Rostos de Fortaleza, de Icapuí, Itapajé, Mossoró, São Miguel do Gostoso, Campo Grande, Umarizal, Felipe Guerra, Sítio Góis no Apodi, Arneiroz, Recife, Ingazeira dos Afogados, São José dos Cacetes, Campinas, Natal, Olinda, Carnaúba dos Dantas, Janduís. Festa circense, musical, poética, e teatral.Atenção!!! Ruflam os tambores, ecoam os aboios, e saem os comboios.Ocupam as ruas, as quadras das escolas, as salas de aula. A cidade acorda sonolenta e a moçada manda ver nas vivências. A percussão vai começando o despertar, a afinação sob a batuta do Jair 9Grupo Soltando a Voz de Fortaleza-CE) em plena rua.Nas vivências de capoeira, o corpo é alongado e o resgate da ancestralidade é o caminho buscado.Chego á vivência de cordel.Tem gente de Mossoró, De Fortaleza, Natal, Gente do interior e gente da capital. O poeta repentista retrocede no tempo. O tempo no interior. As cantorias, as festas populares, queimas de fogos. Cantorias de pé de parede, forró pé de serra. Os cordéis e os cordões. Partindo da tradição oral os cordéis contam romances, tragédias, comédias, desde as épocas medievais até os dias atuais assim como a chegada da comunicação massiva, impessoal.O cordel morreu!!!!Será????Salve Amendoim, repentista facilitador dessa vivência. O cordel está assim?Vamos falar de cordel, repente, poesia popular.Vamos pensar a importância de comunicarAção comunicativa que resiste, persiste,Mesmo frente á in-comunicação massiva.Na roda do cordel poetas presentes e ausências que se fazem presença.Antônio Francisco de Mossoró é uma referência para muitos que ali estão.As falas vão revelando personagens, atores, autores, Meninos cantores.Nas histórias de cordéis e cordelistas,Repentes e repentistas, Lembra-se o tempo da ditadura militar, Fala-se do que foi ocultado, Do que foi relatado, Do que foi denunciado, Nas rimas e repentes do poder dos generais, Mas também a luta, a resistência. Identidades culturaisO que ficou nos ancestrais????As vivências vão desvelando caminhos possíveisDicas do caminhar dos grupos em continuo movimento.Circulando nos espaços as marcas de uma história, que precisa ser contada, refletida, re-significada.Na vivência da cenopoesia, Zé Cordeiro (Grupo Arribaçã de Rosário-Argentina), Ray Lima e Johnson Soares (Pintou Melodia na Poesia) e os atores e atrizes vão se revelando e juntos vamos nos encontrando, nos entranhando na poesia.Poetas e artesãs, Mães, brincantes, Artistas, inventadores, reinventam a invenção Do litoral ao sertão.De grupos recém-nascidosVamos juntando linguagens, maracatus e atores para cantar à vida.No Escambo vamos conjugando o meu , o teu , o nosso.Os andares de cada um, os lugares diversos, as poesias e as paixõesVamos construindo narrativas, relações, amizades.Aqui o papel dos mestres, dos facilitadores, é na visão dos seus atores e atrizes, juntar pessoas e depois sair. Deixar a vida fluir.A cenopoesia traz não só os poetas, atores, escambistas, mas seus territórios vivos, suas histórias de luta. Assim cenopoetisa Johnson:Eu sou do Pirambú, o mundo inteiro fica no Pirambú. E vai desvelando a música resistência, de autores, compositores.Compartilhar de culturas.Estão falando em lotear a luaSem terraSem tetoCaridade ou amorA terra, o corpo, a mão, o pãoPalavras jorram da boca de neófitos:Muito prazer! Vim conhecer e me apresentar. Escrevo, canto e interpretoCanto o outro em mim!!!E assim vamos com humildade buscando sentir o outro, cantar o outro, dialogarOutras falas. O poeta carioca vai falando da mulher...Eu sou Zé Cordeiro vim do Rio de Janeiro.... Mamãe eu quero..mulher quenão é escrava do homem ou do capital.No movimento escambo a arte está no ligar-se á realidade, buscar a transformação na ação poética, musical, teatral, arte engajada.De Santa Cruz, o desejo, o sonho, a arte de crescer. Ofício de ser valente, de ser feliz.Fala Janduís, essa cidade pequena com valores de um país, panela em ebulição!!!Mas nem só de cenopoesia vive o Escambo. No pátio da escola, o corpo fala: Estátua!! Os atores vão compondo e recompondo suas estruturas corporais. Estátua!! quero tensão, todos os músculos em ação. Na vivência corporal, o segredo é articular tensão e tesão. O corpo vivo em movimento. Precisão. Concentração.Como está a nossa base?Qual o momento certo de acelerar ou lentificar o movimento?Que reflexões podemos construir no nosso movimento corporal e em que podemos transcendê-la para nossa organização?Da presença cênica que exige precisão;Da base essencial para pensar o ritmo, os planos, os que estarão no alto, os que estarão em baixo,os que estarão no centro, sempre a base como referência.È preciso acelerar?Correr?Como caminhar com ritmo, decisão, sem esbarrar nos corpos?Sem tolher os passos dos nossos irmãos?Como expressar não só com falas, mas com olhos, bocas e gestos, Nossos desejos, Nossos projetos.O tempo agora não é de relaxar!E na vivência de dança contemporânea, o espaço também está em foco.Noato;Naconceituação; Concentração.É a palma que dá o tom, o ritmo e o riso.O nosso movimento é pra valer!Não pode parar.É sorrir, se concentrar,Cair e levantar.A vivência de dança nos ensina a nos mexer na aqui na esfera, sem perder o eixo, os planos..Movimento pendular.Num espaço plural, coletivo, é preciso cuidar das transferências, perceber o caminhar de cada um.Está na hora de trabalhar a intuição, fechar os olhos e tentar se orientar, se desprender do que está dado. Buscar novas conexões.Não deixar que o medo e a insegurança imobilizem.Buscar o caminho objetivo sem arrodeios.Caminhar com intenção e decisão, As mãos na direção do infinito.Os pés que se enraízam na mãe terra.Espírito e matéria.Manter a mente aberta pra criar e deixar fluir a arte de modelar. Criar.Para os escambistas, Viver de arte,Na arte, Artesã, Artesão, Arte e tesão.Precisamos pensar conjuntos,Articular nossas ações,Talhar modelos,Expressões.Nosso corpo,Instrumento, Sujeito, Base.Base. Aliás, essa é uma palavra chave em todas as vivências.Essência de um movimento solidário.Temos que nos preocupar em manter a tradiçãoE, ao mesmo tempo, inovar.Renovar constantemente.Provocar mudanças.O artista não pode ter medo de se expor.Na rua, a arte nua,A rua, nosso campo de atuação.E nessa atuação, celebrando a vida ou chorando a morte, dar assas á imaginação.Deixar que o personagem dialogue com o ator.È preciso contextualizar o personagem, construir resiliência.Na cenopoesia e no Escambo, é preciso construir a teoria, que nasce da ação cotidiana.Das possibilidades de fazer interagir diferentes linguagens.Aqui não há diretores e sim arranjadores.Cênicos, epistêmicos, cujo papel maior é articular linguagens sem hierarquias.Na interação dialógica, há que se pensar a estética, a poética, a ética, Pensar o macro para capilarizar.O geral e o singular.Na cenopoesia, no teatro, na dança, na música, o Escambo é construção.Definição em relação ao seu público.O eu político que se expressa na ação-reflexão-ação.A práxis criativa do refletir fazendoE fazer refletindo.E a cena se constrói, esse fazer coletivo.Na feira do escambo cenopoético, partilhamos nossa história.Nós a construímos em aboios, nos espaços que nunca serão vazios, enquanto persistir nossaesperança e rebeldia.Nas veias e veios porque nossa partilha jamais será solitária.Porque ela é solidária. Engajada, cuidadora, ecológica, transgressora, transformadora, emancipadora, inter-geracional, multireferencial.De peito aberto, buscamos a liberdade de criar o diverso, o regional, o singular, o universal.Não resistir á arte, conjugar o verbo estar.Estar,EstouEstamos?Sim, porque o teatro é do ator, disse o mestre Amir Haddad.Esse ator/atriz, cidadão e cidadã.Capaz de dizer coisas, de perguntar sobre o que já aprendeu.Ator e personagem, dualidade essencial, no ato teatral.Rito e celebração.O Escambo como o teatro é esse ato coletivo, infinitamente potente, Criativo, Vivo,Vivamos. Vera Dantas
Médica/Atriz – Coordenadora do Projeto Cirandas da Vida da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza – CE, articuladora da ANEPS e uma das fundadoras do Movimento Escambo.

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